2026-04-03
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Jair Bolsonaro e Donald Trump se cumprimentam na Casa Branca durante visita do então presidente brasileiro ao seu contraparte americano,em março de 2019 — Foto: Jim Watson/AFP
GERADO EM: 02/04/2026 - 23:15
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Flávio Bolsonaro fez uma palestra na CPAC,principal conferência conservadora dos Estados Unidos,no último sábado. Como era de esperar,em seu discurso atacou as elites globalistas,o ambientalismo,a agenda woke e o Estado profundo; protestou contra a prisão do pai e acusou o presidente Lula de se alinhar com a China — propondo,em contrapartida,alinhar-se aos Estados Unidos se eleito presidente.
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Para Flávio,“o Brasil é a solução da América para quebrar a dependência da China em minerais críticos”. Segundo ele,a aliança Brasil-Estados Unidos se baseia no fato de a América precisar de “cadeias de suprimentos seguras para materiais críticos,um parceiro confiável no hemisfério e um mercado maciço para bens e serviços norte-americanos. E o Brasil precisa de três coisas: ajuda no combate aos cartéis de drogas transnacionais,investimentos e tecnologia”. Essa aliança,como se vê,é profundamente assimétrica: um lado provê matéria-prima; o outro,produtos manufaturados e de alto valor agregado; um lado cede o território,o outro provê proteção. Patriotismo peculiar.
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Ao contrário do que alegou parte da esquerda,Flávio não pediu intervenção americana nas eleições brasileiras — disse explicitamente que “não queremos interferência nas eleições brasileiras,como o governo Biden fez para trazer Lula ao poder”. Denunciou,porém,uma “enxurrada de dinheiro da Usaid e interferência maciça do governo Biden” e pediu que,desta vez,tenhamos eleições livres e justas,baseadas “em valores de origem americana”. Não valores democráticos,valores americanos.


O discurso de Flávio se insere numa longa sequência de declarações e atos da família Bolsonaro que subordinam interesses brasileiros à aliança com os Estados Unidos. Seu irmão Eduardo pediu intervenção americana punindo ministros do Supremo que tinham condenado seu pai. Quando a resposta americana veio na forma de duríssimas tarifas que prejudicaram a indústria e os empregos brasileiros,ele não hesitou em defender as tarifas contra o setor produtivo nacional.


Em nota pública assinada em conjunto com Paulo Figueiredo,Eduardo disse que “o presidente Trump,corretamente,entendeu que Alexandre de Moraes só pode agir com o respaldo de um establishment político,empresarial e institucional que compactua com sua escalada autoritária”,e que “esse establishment também precisa arcar com o custo desta aventura”. O patriota Eduardo defendeu que os Estados Unidos punissem empresários e trabalhadores brasileiros.
Na sexta-feira passada,reportagem do jornal The New York Times documentou o trabalho de lobby de Eduardo e Flávio Bolsonaro,que entregaram dossiês ao Departamento de Estado e à Casa Branca pedindo que PCC,Comando Vermelho e outras facções criminosas sejam considerados “organizações terroristas estrangeiras” nos Estados Unidos.
Originalmente,essa denominação era reservada a organizações como Al-Qaeda e Estado Islâmico,mas,recentemente,Trump passou a incluir organizações criminosas como os venezuelanos Tren de Aragua e o Cartel de los Soles (expressão para designar a ação difusa de agentes corrompidos do Estado venezuelano). Foi com base nessa designação que Trump justificou o bombardeio de navios no Caribe e a posterior ação militar que invadiu a Venezuela e prendeu o ex-presidente Nicolás Maduro. Se as facções brasileiras forem consideradas “organizações terroristas estrangeiras”,isso criaria base jurídica nos Estados Unidos para justificar ações em território brasileiro — o mesmo instrumento usado no caso da Venezuela. Fazer lobby por isso certamente não parece patriótico.
Se ações para permitir intervenções americanas em território brasileiro e punir economicamente empresários e trabalhadores brasileiros não são suficientemente impatrióticas,podemos lembrar também de Jair Bolsonaro batendo continência para a bandeira americana em Dallas,em 2019,adaptando seu slogan para “Brasil e Estados Unidos acima de tudo”.
Na ânsia de derrotar a esquerda e libertar o patriarca,a família Bolsonaro está disposta à integração subordinada aos interesses americanos,entregando nossos minerais críticos,punindo o setor econômico brasileiro e arriscando a soberania territorial da nação. Seu patriotismo tão celebrado é um patriotismo de araque,que trocou o verde e amarelo pelo vermelho,azul e branco.